Se Teresópolis Fosse das Mulheres

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SE TERESÓPOLIS FOSSE NOSSA

A cidade não é vivida, acessada e decidida da mesma forma por homens e mulheres. As
mulheres ainda experimentam em seu cotidiano situações de violência e assédio nos mais
diversos espaços; ocupam as vagas menos remuneradas e precarizadas no mercado de
trabalho, além de serem impelidas ao acúmulo de funções; pouco participam das decisões
políticas institucionais, espaço marcadamente ocupado por homens; tem a liberdade de
seus corpos, desejos e afetos subtraídas e controladas em múltiplas instâncias.

Para debater essas questões, recolher experiências e pensar políticas públicas que possam
minimizar as desigualdades de gênero na cidade, objetivando um município mais
democrático, aconteceu mais um encontro do fórum de debates “Se Teresópolis Fosse
Nossa” no domingo, 07 de agosto, na cafeteria “Cheirim de Café”. O encontro foi dividido
em dois momentos. No primeiro, levantou-se coletivamente um panorama da situação das
mulheres no município, enquanto experiências, dificuldades, acesso a serviços públicos.

A seguir, construiu-se em grupos menores propostas para a cidade, seguido de plenária para sistematiza-las e discuti-las. Várias são as áreas marcadas pela desigualdade de gênero. No campo da cultura, colocou-se a dificuldade que as mulheres enfrentam em ter suas produções reconhecidas e valorizadas.

Há uma resistência a arte questionadora, feita por mulheres e é desigual a credibilidade que se dá as obras produzidas por homens e mulheres, sendo as primeiras apoiadas, patrocinadas, enquanto as segundas permanecem a margem. A cidade é hostil às mulheres, elas sentem-se vulneráveis com a quantidade de assédios que sofrem rotineiramente e o quanto isso impacta na mobilidade pelo município em horários e locais específicos. Uma das angústias postas é a falta de representatividade das mulheres no espaço público e a dificuldade que elas tem em ocupá-lo.

Parte desta questão é considerada como historicamente construída, recorrendo a instituição da família moderna como tempo espaço em que a mulher é tomada como propriedade privada e sua atuação reservada ao ambiente recluso do lar, sendo responsável pelo trabalho doméstico e cuidado com os filhos, ofício desvalorizado social e monetariamente.

Cria-se um ideário do que é ser mulher, aquela que é frágil, passiva, do lar. Essa mulher propriedade, torna-se domínio também do Estado, que a objetifica e tem nos serviços públicos, como a saúde, mais uma forma de violentá-la. A violência obstetrícia é uma realidade na vida das mulheres mães, sendo agravada para as pobres e negras. Neste âmbito levantou-se a existência precária de maternidades públicas no município e como se dá seu atendimento.

A forma como se pensa a maternidade, como responsabilidade somente das mães ou das
mulheres (avós, tias, etc) é um problema, as leva ao acúmulo de funções e a discrepância
valorativa de suas atividades permanece visível. Constatou-se durante o encontro a grande
quantidade de lideranças femininas no município ocupando os mais diversos espaços
(movimentos sociais, sindicatos). Questionou-se se no campo de atuação que estão a
questão de gênero é levantada e o desafio de estabelecer mecanismos de comunicação
entre as mulheres das diversas idades, classes, raças.

A participação no Conselho municipal de Mulheres foi apresentada como possibilidade. No âmbito da educação foi considerada a falta de apoio às mães adolescentes e a dificuldade que encontram em permanecer estudando, pela falta de assistência. Mulheres do campo. Propostas No âmbito da saúde, assume-se a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), em face do grande ataque que vem sofrendo pelos diversos setores. A necessidade de garantia e ampliação do Sistema é imprescindível e a luta por hospitais públicos de qualidade, constante. A garantia de saúde integral e dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres,
compreendendo suas especificidades é essencial. Um modelo de saúde em que o paciente
seja participe do processo e não somente um usuário do serviço, deve ser fortalecido.

Criação de equipamentos culturais e ampliação dos já existentes, editais voltados para a
arte feminina, com parcerias da secretaria da mulher, cultura e/ou educação e integração
da escola como espaço cultural em bairros periféricos do município, garantindo acesso às
mulheres, são proposições que se delinearam no campo da cultura, enquanto arte. À
educação, pensada de forma integrada a outras áreas, deu-se propostas de criação de
discussões de gênero, diversidade e feminismo, fim de estereótipos de família e gênero
nas escolas municipais (dia das mães, pais, etc), incentivo no ambiente escolar para que
as mulheres participem das questões públicas e os homens do cuidado doméstico e
parental, fomento de grupos de assistência para mães e pais adolescentes, garantia de
vagas integrais nas creches, especialmente para mães adolescentes e/ou solteiras e
elaboração de um projeto pedagógico para educação sexual.

Quanto à segurança, foi sugerido mapeamento – aproveitando inclusive aplicativos colaborativos já existentes – de áreas da cidade consideradas perigosas para as mulheres, bem como da quantidade de crimes contra essa parcela da população, para a construção de uma base de dados que dê subsídios a uma maior intervenção e conscientização da população sobre o assédio e violência contra a mulher. Houve proposição ainda de melhor iluminação pública nos logradouros da cidade. Quanto a atuação do setor específico para atendimento às mulheres dentro das delegacias, questionou-se se pode ser um espaço de acolhimento de fato ou é necessário uma delegacia da mulher. A dificuldade de acesso e produção de informações sobre o município foi tomada como carência importante, sendo proposto, além de mapeamentos, ampliação e divulgação das políticas públicas existentes à população e dos canais de denúncias nos casos de violências. Assistência financeira a mães solteiras desempregadas ou de baixa renda e extensão da licença parental, com licença
maternidade e paternidade para os funcionários da prefeitura foram pontos sugeridos
também.

Houve polêmica com relação a proposta de criação/ampliação de um setor
feminino na guarda municipal, tendo como contra proposta a formação de agentes
comunitários para atuação na prevenção de crimes e violências contra a mulher. Tal
questão permaneceu em aberto no encerramento do evento. Muito se falou sobre a
necessidade de criar formas de intervenção e organização para que o diálogo possa ser
constante e se efetive em práticas públicas institucionais. Acredita-se na potência desse
fórum como uma dessas formas, criando uma rede de pessoas preocupadas com a
construção de uma cidade que seja nossa, que seja democrática e não hostil as mulheres.


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